segunda-feira, 8 de outubro de 2012

AS CONFISSÕES DO ÚLTIMO BANCO DE UMA IGREJA




“AS CONFISSÕES DO ÚLTIMO BANCO DE UMA IGREJA"



Sou um banco de Igreja. Nasci numa floresta nativa do Amazonas. Quando ainda era árvore, jamais imaginei que teria um fim tão digno. Algumas amigas minhas não tiveram a mesma sorte que eu. Umas se transformaram em lenha ou em caixão. Outras, mesmo não tendo um fim tão nobre quanto ao meu, estão bem, agasalhadas do frio, dentro de um quarto,
como guarda-roupas. A única importunação que têm, é aturar algumas madames reclamando das roupas que são guardadas ali, pois nunca estão satisfeitas.

Eu tenho muitas histórias para contar. Lembro-me, todavia, de um dia
especial. Era a inauguração do templo. Todos estavam em festa. Recebi um tratamento de primeira. Estava limpo, lustrado, cheiroso e orgulhoso dos meus colegas. Fiquei empolgado quando soube que iria ser um dos primeiros no santuário, perto do púlpito. Mas um diácono me carregou e me colocou na última fileira, o que me causou grande tristeza. E já faz várias décadas que não saio de lá. Com o tempo descobri que, se não era o mais importante, eu era, pelo menos, o mais procurado. Os meus colegas da frente começaram a me invejar. Afinal, uma grande parte das pessoas me dava preferência, e queria sentar lá no final do salão de cultos. Logo em mim.
Durante muito tempo, como um tolo, fiquei vaidoso, achando que as pessoas gostavam de mim, e por isso me procuravam. Até comecei a ouvir o que as levava a me procurar. Aí fiquei furioso e muito envergonhado por ser o último banco.
- Sabe por que eu sento aqui, dona Maria? É que se o culto demorar muito, eu saio de fininho...
- João, senta aqui atrás, que se a gente conversar ninguém vai notar...
- Aqui é o melhor lugar quando se quer namorar...
- Hoje eu estou com muito sono, e como esse pregador fala muito, vou ficar por aqui mesmo porque se eu dormir, ninguém nota...
Assim, fiquei muito decepcionado, e com o tempo, deprimido, mas acabei me acostumando.
Um dia aconteceu algo muito diferente e emocionante. Eu estava ali, no meu canto como há muitos anos, até que entrou um indivíduo sisudo, de cara feia. Queria um lugar para sentar mais atrás, pois estava envergonhado ao entrar no templo. Eu, como sempre, estava quase todo ocupado e os meus colegas da frente vazios. O homem quase desistiu. Nesse momento, uma menina, que não parava de conversar, resolveu levantar para beber água, o que fazia umas quatro vezes por culto. Como o lugar ficou vazio, o sujeito sentou. A princípio não parava de se mexer. Torcia a cara e mostrava um profundo pesar por estar ali. Lembro-me, então, que o pregador começou a falar sobre perdão, e o homem fiou impávido, de repente.
Ao término da mensagem percebi que alguma coisa estava acontecendo. Comecei a tremer. Notei que era o tremor do indivíduo que estava também me fazendo tremer. Até que ouvi o apelo do pregador que dizia: "Se confessares o teu pecado, ele é fiel e justo..." Comecei a sentir algumas gotas caindo sobre mim. Vi, então, lágrimas em seus olhos. O mensageiro dizia: "Não deixe o banco te prender, venha à frente, pois quero orar por você... "Eu não estava prendendo ninguém! Aquilo era uma calúnia; estava até torcendo para que o homem atendesse ao apelo”.
Todos ficaram de pé, conforme o pregador pedira, para que se cantasse um cântico durante o apelo. Mas aquele senhor continuava sentado, quando algo diferente aconteceu. Ele começou a falar sozinho, uma frase mais ou menos assim: "Ó Senhor, tem misericórdia de mim, pecador" De repente eu senti um calor especial. Não era algo normal.
Senti que alguém sentara, mas não conseguia ver quem era, era algo invisível...diferente...espiritual! Até que entendi de quem se tratava, pelas palavras que ouvi da boca daquele senhor, que ali chegara tão abatido: "Obrigado, Senhor Jesus, por me perdoares, obrigado, Jesus, por me tocares, obrigado Jesus, por estares aqui". Jesus estava ali! Sentado ao lado daquele homem quebrado e moído pelo pecado, todavia contrito e arrependido. Jesus estava sentado no último banco da igreja, e este banco era eu.
Naquele momento, eu me senti a mais importante madeira do mundo. Inferior apenas à madeira que recebeu um privilégio ainda maior: o de suportar os cravos do Senhor, a madeira da cruz. Mas eu não a invejo, porque, afinal, somos parte de um mesmo processo. A partir desse dia, a minha alegria voltou!
É bem verdade que ainda fico muito triste, quando muitos me ocupam, não deixando lugar para os que precisam que Jesus venha se assentar junto a eles, e assim perco a oportunidade de senti-lO de novo.
Mas, não importam as conversas frívolas que ouço, os dorminhocos que suporto ou até os chicletes que colocam em mim.
Aquele foi um momento tão especial que me encheu de orgulho por ser, apenas, o último banco da igreja.

* * * * * * * *

Extraido de Vida Cristã
3º Trimestre 2000

Nenhum comentário:

Postar um comentário